segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Vote na Dilma por Arnaldo Jabor
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Arnaldo Jabor e Obama
One of the things that I have always liked and admired about you is your continuing youthful outlook (in spite of your obvious weariness of lambasting Brazilian politicians and other thugs). And, of course it is true that we are all strongly affected by the experiences of our youth, which in your case you spent in St. Augustine during a period in U.S. history when events loomed large in the collective imagination.
But, don't forget that you lived in the South, and there are other regions in the U.S. with vastly different ways of doing things.
And, although I hate to remind you of this, your generation is not the same as the present generation. Many Americans are proud and pleased to see a black American well on his way to becoming President, as this has the effect of letting them off the guilt hook somewhat.
Personally, I don't believe Obama's skin color leaves him more at risk of being shot -- we have had lots of U.S. presidents shot -- and all of them were white, as I recall.
The only thing Obama really has going against him is the impression he makes of being a snooty intellectual. Lately, Americans have preferred to look down on their presidents, not up to them (well, except for Monica, that is).
Times have sure changed since you went to high school in Florida.
sábado, 17 de maio de 2008
Arnaldo Jabor: Cinema americano louva a cultura da certeza
Fui ver o Iron Man (O Homem de Ferro). Saí do cinema e caí num grande vazio; depois daquele show de efeitos especiais, a cidade estava irreal. O filme é fantástico e inverossímel – tudo que eu queria ver no cinema, pois está cada vez mais difícil se iludir ou se horrorizar, com esta situação mundial espantosa. O público sai de alma lavada. Por quê? Porque se sente “protegido”. Saímos do cinema com a frase na cabeça: “Que seria do mundo sem os americanos?” “Vocês estariam perdidos”, nos dizem eles, “voltem a confiar em nós”. O filme americano atual quer restaurar nossa fé no Ocidente.
Ao contrário das obras comunas ou nazistas, que vendiam um “futuro”, um paraíso soviético ou um Reich de Mil Anos, os EUA vendem o “presente”. Americano não tem futuro. Só um enorme presente prático, feito de objetos e gadgets, serviços e sentimentos redentores. Por outro lado, nada é parte de um “complô” para nos “lavar o cérebro”, nada disso. Não é uma propaganda consciente. Não há Comitê Central nem CIA, por trás. Os americanos são um produto deles mesmos, acreditam no que dizem. A sinceridade é sua arma total. O verdadeiro cinema político é o filme americano.
Logo depois da Guerra Fria os filmes mostravam uma América em “frenética lua-de-mel” consigo mesma.
Com o fracasso do socialismo, que ainda lhes obrigava a alguma humildade, os americanos passaram a achar que “vida” e “América” eram a mesma coisa. “Ser” era ser americano. Nem o mais delirante filme de propaganda vendia a URSS com esta certeza.
A idéia de paraíso americano era a perfeição do funcionamento. Com o fim da Guerra Fria, os americanos ficaram meio desamparados, sem inimigos reais. Cultura paranóica não gosta disso. No mundo real, com a queda da URSS feito banana podre, com a globalização, veio impressão de que a história tinha acabado com final feliz americano. Os Estados Unidos eram o país da “cultura da certeza”.
Com o 11 de setembro, junto com as torres, caíram também a arrogância, o orgulho da eficiência. Deprimiram por uns anos, mas, depois da elaboração da derrota, retomaram a trajetória do mito americano e, assim como vão reconstruir as torres gêmeas, voltaram a fazer filmes para reconstruir o herói americano, tão humilhado nesta horrenda era Bush.
E os novos heróis não são políticos nem cowboys. Iron Man nos traz de volta o “homem-comum” que se transforma em herói (“você não nasce herói; você se constrói” – proclama o trailer).
O novo herói é um semideus com espantosa competência mecânica, praticante de um do-it-yourself épico, percorrendo “odisséias” tecnológicas.
Ele luta contra terroristas; não é a coletividade organizada. Quem vence é sempre o indivíduo sozinho e sua incrível competência para improvisar.
Antigamente, sofríamos durante a trama, esperando que os heróis ou amantes fossem felizes no final. Hoje, sabemos que tudo vai acabar bem, mas nos fascinam mais os infernos que eles terão de atravessar, para chegar a um desfecho fatalmente bom. A catarse chegará, mas antes temos amputações, temos bazucas estourando peitos, bombas, perigos e vemos que, mais importantes que as personagens, são as “coisas” em volta. Sim, as coisas. Personagem é só um pretexto para mostrar o décor. E o décor é um grande showroom dos produtos americanos, que são as verdadeiras personagens: maravilhosos aviões, os supercomputadores, a genialidade tecnológica.
Esses filmes são de uma eficácia assustadora, como seus heróis. Os roteiros são feitos em computador, de modo a não deixar respiros para o espectador. É preciso encher cada buraco, para que nada se infiltre na atenção absoluta. Os efeitos especiais são mais importantes que os conflitos psicológicos. Neste neo-cinema épico século 21, as personagens não fogem de um conflito; fogem dos produtos. Não importa o enredo; só o gozo da cena. O filme de ação busca na violência e nos desastres a mesma visibilidade total do filme pornô.
É uma nova dramaturgia de Hollywood: a estética do “videogame”, onde a personagem principal não é mais o “outro”, mas nós mesmos, com o “joystick” na mão e nenhuma idéia na cabeça.
Albert Camus escreveu que a América “odeia a idéia de morte, que tem de ser banida a qualquer custo”. Pois é; os filmes de violência e guerra, ao mostrar a morte nua em sua banalidade, sonham secretamente em exorcizá-la.
E pior: não adianta se refugiar na arte. O cinema de autor ficou mirrado diante de tanta homérica violência. A arte pressupõe uma imperfeição qualquer, uma fragilidade que evoca a natureza perdida; a arte inclui a morte ou o medo, mesmo no triunfo das estátuas perfeitas.
A destruição que vemos na vida, a sordidez mercantil, a estupidez no poder, o fanatismo do terror, o beco-sem-saída do fundamentalismo, a destruição ambiental, em suma, toda a tempestade de bosta que nos ronda está muito além de qualquer crítica. O mal é tão profundo que denunciá-lo ficou inútil.
Na arte atual, não há vestígios de esperança. Vivemos diante de um futuro que não chega e de um presente que nos foge sem parar. Isso nos faz saudosos do presente como se ele fosse um passado.
Uma espantosa nova linguagem surgiu e cresce como um “transformer”, como um “Megatron”, nas telas do mundo. E talvez só essa língua dará conta de nossa solidão, de nossa fome de ilusão. Não adianta buscar a bênção da arte. Só em filmes como Iron Man teremos o consolo do esquecimento.
terça-feira, 15 de abril de 2008
Arnaldo Jabor -- "Roubar é humáno!..."
Nada gruda nos ladrões-teflon
"Roubar é sexy, meu amigo" - me disse o ladrão assumido, deitado numa bóia roxa, flutuando na piscina, com um coquetel amarelo e rosa na mão. - "Roubar dá tesão! Tem algo de orgasmo. Quando eu embolso uma bolada, o fluxo de libido é inesquecível. Roubar é uma aventura louca, um filme de ação, roubar é um vício secreto; mesmo o roubo pequeno dá prazer - entrar numa loja e estarrar um livro ou uma jóia, com o coração disparado do pavor de ser pego, e depois a alegria de sair na rua, sem ninguém ver, dá um baratão, meu amigo... No ladrão de galinha e nas grandes roubalheiras há o mesmo prazer doce da adrenalina. Há muitos tipos de ladrões" - continuou o meu entrevistado, inteligente, articulado, sem uma mácula de culpa no rosto de Botox -, "mas o desejo geral é "dar um tapa numa nota" e resolver a vida para sempre, se bem que a vida não se resolve nunca", refletiu, filosófico, bicando o coquetel amarelo-rosa.
"A fantasia comum é sair da vida social e de seus contratempos, ir para uma praia infinita e nunca mais parar de beber água-de-coco. Mas isso é coisa de amadores. Profissas como eu querem roubar sempre. Depois do primeiro milhão de dólares, o negócio é mais pelo prazer. Já peguei muita mala preta debaixo de banco de praça. A libido que rola na hora de ver as "verdinhas" é melhor que morfina, palpar os dólares arrumadinhos pela concessão pública de um canal de esgoto ou de um golpe no INSS é uma volúpia inesquecível. Uma vez, peguei uma pasta com cem mil dólares. Fui tomar um cafezinho e tive o capricho de deixar a pasta em cima do balcão, ao lado do açucareiro, onde se acotovelavam operários com copinhos de cachaça, e eu pensava: "Nessa pasta aí está a salvação deles, e eles nem imaginam..."
Hoje, trabalho muito na política. Estar em Brasília é uma proteção. Antigamente, o sujeito roubava e fugia para o mato. Hoje, não. Foge para o Congresso, para dentro da Lei. A minha turma de ali-babás tasca cerca de 70 bilhões de reais por ano no país todo; é o cálculo estatístico. A concorrência é grande... E somos intocáveis... - somos os ladrões-teflon, pois nada gruda em nós.
Neste governo, então, está um maná! Com as alianças escrotas, onde a estratégia é topar tudo pelo poder do Lula e felicidade geral dos sindicatos, o Tesouro nacional é visto como um butim a ser "legitimamente" saqueado. Você viu outro dia a comemoração dos pelegos no Congresso, felizes, tudo de gravata, com uísque 30 anos, ameaçando jornalistas? A ideologia absolve e justifica os malandros. "Não tem nada demais pegar mais 100 milhões por ano e não prestar contas ao TCU... - afirmam - trata-se da vitória dos sindicatos sobre os burgueses que exploram o povo, pois, como dizia Lenin: os fins justificam os meios..." É assim....
Eu sou muito olhado com ódio e uma ponta de admiração nas churrascarias e shoppings. "Olha lá o ladrão!"..., o executivo diz, traçando uma picanha. Mas sei que o outro responde: "É ladrão, mas é espada, dá nó em pingo d"água!...". E nem ligo, porque me sei invejado pelas aventuras que me atribuem. As mulheres imaginam os colares que ganhariam se fossem minhas piranhas louras, como as putinhas dos filmes de gângsteres dos anos 40. E ainda se viram para o maridão otário e lhe atiram na cara: "Você não é honesto, não; você é burro!!"
Eu confesso um certo orgulho kitsch por meu sucesso na corrupa e no cafajestismo. Há uma beleza dionisíaca nisso. Depois que eu enriquei, fiz como todos: passei a entender de vinho... - nada como um Chateau Margaux 2000 - , comprei uma lancha de cinco milhões de dólares, gado holandês e, claro, tenho duas amantes "cachorras", de cabelo pintado e correntinha no tornozelo.
No roubo da coisa pública, tenho culpa zero (aliás, em tudo). Todos roubam - eu me justifico - e, então, eu tiro o meu. Antes eu do que eles...
Eu me vingo da humilhação da pobreza na infância: mãe lavadeira, sapato furado. Eu tenho justa causa, sim. E sou pessimista - não há o que fazer... sempre foi assim. O ser humano é nocivo por natureza... Por isso, taco a mão no dinheiro público...
Sinto até um toque de patriotismo. Deixar dinheiro lá para eles pagarem o FMI? Nunca... Sou meio de esquerda... E tenho minhas taras também. Quem não tem suas taras? Eu por exemplo, confesso, adoro ver os olhos covardes do empresário pagando-me propina pelo empréstimo conseguido no banco estatal ou para o perdão de uma dívida. O empresário tenta fingir naturalidade, mas o ódio acende-lhe os olhos. Adoro ver-lhe a raiva travada na boca, o sapo engolido, fingindo-se simpático, adoro ver-lhe as mãos trêmulas, adoro até o desprezo impotente que ele tem por mim. Gosto de me sentir conspurcado pelo nojo do outro. Eu me babo de prazer quando vejo a cara do juiz comprado ostentando alguma severidade, enquanto exara uma liminar comprada, e que se exaspera quando vê a piscadela cúmplice que eu lhe atiro na hora da sentença. Sinto-me superior aos otários que me compram, não me ofendo, ao contrário, olho-os do alto!
E vou mais longe. Superei a dor patológica de uma perversão mal assumida. Vou lhe contar o que não conto nem para o espelho. Outro dia, cheguei em casa, depois de ganhar uma grana negra tirada das verbas de remédio para criancinhas com câncer e, quando entrei em meu lar, doce lar, meus filhos felizes viam desenho animado na TV. Sabe que senti zero de culpa? Tive orgulho. Minha gelada indiferença me pareceu prova de macheza, uma novíssima forma contemporânea de integridade. É isso aí, meu ingênuo jornalista, pode botar tudo aí... eu sou inatingível... o Código Penal todo foi escrito para me proteger. Por que não passa na Câmara a reforma da Lei de Execuções Penais? Porque não deixamos... ah, ah... Este país foi feito assim: na vala, entre o público e o privado. Há uma grandeza na apropriação indébita, florescem ricas plantas na lama das roubalheiras. A bosta não produz flores magníficas? Pois é... o Brasil foi construído com esse fertilizante.
Sempre foi assim e sempre será. Roubo é cultura, meu amigo... Um forte abraço..."
quarta-feira, 26 de março de 2008
Arnaldo Jabor -- O homem versus o mosquito
And this is once again the reason that sometimes Arnaldo Jabor is my hero:
O Rio é uma calamidade urgente que tem de ser assumida
Não interessa saber se a dengue é uma epidemia ou não. A dengue é apenas a forma microbiológica que expõe o caos geral da administração do Rio. Os vírus proliferam pelo mesmo fertilizante que estimula a corrupção, a violência, a vergonha burocrática. A verdadeira epidemia é a administração da cidade que já atinge um grau de gravidade talvez irreversível.
Vivemos no Rio (oh leitores de outros estados!...) a sensação permanente do Insolúvel. Já temos a dengue, a febre amarela; um dia chegaremos à perfeição da varíola. Mas muitos sintomas eclodem alem da dengue: depressão, miséria, violência, ignorância. A própria crise psicótica do Cesar Maia também é um sintoma. Ele, que pareceu um exemplo de pragmatismo para quebrar a cadeia do populismo, entrou em catatonia, em paralisia mental, e não fala mais. Diante do Insolúvel, ele emite ruídos de e-mail como um robô quebrado.
O Rio de hoje é o filho defeituoso que a ditadura militar criou, pela fusão com o Estado fluminense, a estratégia "geiseliana" de afastar o MDB de uma possível vitória na política nacional em 75.
A des-fusão dos dois estados e a volta da Guanabara é um tema que surgiu, fervilhou e esfriou de novo, como tudo aqui. Seria uma utopia? Na Prefeitura, na Câmara Municipal, assembléias, repartições, vemos a cenografia e figurinos de nossa desgraça.
Estamos salpicados de favelas, de onde descem hordas de assaltantes para pescar cidadãos como num parque temático, somos governados por populistas de direita há décadas. Nosso melhor governador ("prefeito" do Estado da Guanabara) foi o Carlos Lacerda. Homem inteligente e competente - o ódio máximo de minha juventude - ( podem me esculhambar, velhos comunas...), mas que nos trouxe luz, água, túneis, urbanização e o conceito de administração moderna contra a politicagem fisiológica. Lacerda, com todos seus defeitos, era um atalho no populismo que tirou o Rio do ciclo "de dia falta água, de noite falta luz..."
Hoje, há um caldo de cultura de onde germina nossa tragédia. Ou melhor, duas grandes poças de cultura que se somam.
A primeira grande poça trágica é a imensa ignorância da população pobre, presa da demagogia de oportunistas que usam a religião, o clientelismo, o cabresto, grana, tudo para conquistar votos.
A crassa ignorância dos despossuídos é o chão onde crescem os pseudo-políticos, como a água parada gesta ovos de mosquitos.
A segunda poça de germes é mais sutil. Não está no analfabetismo, nem na crendice, nem na ingenuidade. Está no carioca médio e em sua "cultura malandra". Depois de décadas de desgraça, ainda não sabemos como agir, como nos mobilizar, além de vagos protestos, cartas a leitores ou comentários (como eu mesmo faço), na facilidade da indignação impotente.
Atraso x modernização
Cariocas, somos considerados criativos e manemolentes, quando hoje estamos mal informados e sem inspiração. Somos malandros com o terno esfarrapado, a navalha sem aço e o chapéu panamá rasgado. O carioca tem uma "poética" irresponsabilidade política. Carioca gosta de falar de política mas não de agir politicamente; tudo se afoga no chope ou na praia e chegamos, no máximo, a movimentos abstratos, pedindo paz, abraçando a Lagoa, cantando, chorando. O carioca é ideológico, mas deixa a política para os canalhas. E nossa única saída para a tragédia que vivemos seria uma virada pragmática, uma mudança, uma diferença de métodos e de ética. O Rio está organizado para "não" funcionar.
Tornou-se impossível governar sem uma macro-mudança administrativa. Precisamos de cinturões industriais na periferias, precisamos criar algum objetivo econômico para a região, seja a criação de uma "hong kong" carioca, uma base financeira e cultural. A idéia de que há uma "solução" para o Rio é uma falácia. Precisamos de atalhos, de imaginação. Não dá para retornar a uma "normalidade" ideal, apenas por uma corriqueira substituição de poder. O Rio tem de planejar seu futuro em cima de um luto, da aceitação de uma grave encrenca em estado adiantado.
Com a aproximação das eleições para a Prefeitura, dois cenários se apresentam na paisagem política: o atraso e a possibilidade de uma modernização. Marcelo Crivella é o uso da política como instrumento de outro poder. A prefeitura não como um instrumento para o bem da cidade. A cidade não como fim, mas como meio. Seus eleitores já foram escolhidos e apontados em sua primeira declaração contra Fernando Gabeira: "Ele é a favor de homem com homem, aborto e maconha". É nítido que ele vai usar a superstição, o moralismo tacanho, a ignorância e a obediência religiosa para se eleger, depois de ter sabiamente desviado Wagner Montes do caminho, ele o mais forte candidato no mundo da ignorância pública.
Para esta vertente político-religiosa, quanto mais paralisada a máquina da cidade, melhor. Quanto mais indefesos forem os aparelhos do estado, melhor. Depois do populismo chaguista no estado, depois da honestidade incompetente de Saturnino Braga, depois do brizolismo, da piração de Cesar Maia, involuímos para o populismo da fé.
Por outro lado, a possibilidade de eleição de Fernando Gabeira pode ser uma oportuna retomada de um pragmatismo que não se vê desde o boom do Estado da Guanabara. Não falo por salvacionismo, nem Gabeira seria um bonaparte. Falo porque ele pode criar uma nova vertente política, cortando caminhos pela imaginação, pela criatividade e pelo nível intelectual e contemporâneo que ele representa. Mudança de rumos, mudança: quase um Obama carioca.
Quem pode atrapalhar Gabeira? Homens e mulheres de bem, como Chico Alencar, Jandira, Eduardo Paes, que pensam ainda em termos legítimos (sem dúvida) mas também sem possibilidade alguma de vitória.
Eles teriam de entender e se coligar com o único que tem uma chance de vencer o populismo psicótico (sou um romântico). Entender que o Rio não é uma cidade a mais à espera de uma eleição. Somos uma calamidade urgente que tem de ser assumida, como o desmatamento da Amazônia ou a seca no Nordeste.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Arnaldo Jabor: Eu te amo não diz tudo!
Ele te ama.
Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso,
as três palavrinhas mágicas.
Mas ouvir que é amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de quilômetros.
A demonstração de amor requer mais do que beijos,
sexo e palavras. Sentir-se amado, é sentir que a pessoa
tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade,
que se preocupa quando as coisas não estão dando certo,
que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e
que dá uma sacudida em você quando for preciso.
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que
você contou há dois anos, é vê-la tentar reconciliar você com
o seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste
e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo
tempestade em copo d'água.
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro
e que não transformam a mágoa em munição na hora
da discussão...
Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.
Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada,
aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.
Sente-se amado quem se sente seguro para ser
exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação,
pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.
Sente-se amado quem não ofega, mas suspira;
quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda,
mas escuta. Agora, sente-se e escute: Eu te amo! Não diz tudo!
"Me ame quando eu menos merecer,
que é quando eu mais preciso."
terça-feira, 13 de novembro de 2007
This space is reserved for "Arnaldo Jabor and Yoko Ono: Coming soon, but not together, right now"
OK, here is my sometime hero, Arnaldo Jabor, adding an interesting angle to the historical record:
"Por que jamais gostei da Yoko Ono: a arte da viúva de Lennon tem gosto de nada", Arnaldo Jabor, O Globo, 13 outubro 2007, Segundo Caderno, p. 10.
Conheci Yoko Ono ao mesmo tempo que John Lennon. Ou quase. Eu estava em Londres em 1967, na semana em que foi lançado o álbum Sargent Pepper, que coloria todas as vitrines de King´s Road, quando ouvi falar da Yoko. Lennon a conheceu na mesma época: "fatal encounter". Me disseram: "Tem uma japonesa ai interessante, que vai fazer um "happening" num teatro que vale a pena ver".
Lá fui eu, movido pela "febre do novo" dos anos 60. Yoko mostrou um filme que ela trouxe também para sua turnê em São Paulo. Chamava-se "Bottom" e era um documentário até engraçado, pois ela entrevistava pessoas, apenas mostrando suas bundas, enquando andavam no mesmo lugar. As bundas se moviam e, em "off", ouvíamos suas opiniões sobre a vida. Era legal, pois algumas bundas combinavam muito com as opiniões emitidas. A bunda é também a cara do dono. Talvez seja até mais verdadeira, pois a cara dá para mudar, repuxar, maquiar, mas a bunda fica ali, denunciando tudo, se bem que hoje, com as plásticas, as bundas ficaram mais enganosas. Depois desse filminho simpático começou no teatro um ritual "hippie nipônico" que começou a me irritar. A Yoko subiu ao palco e com um autoritarismo "soft", convenceu a platéia se dar as mãos e a contemplar o "prana", a energia vital que "estava em tudo". Ela era pequenininha, mas visivelmente mandona. Sua mansidão humilde de japonesa, era visivelmente fabricada, ocultando uma grande ambiciosa. Era até bonitinha, de rosto e seios, (bundinha caída...) mas, tinha charme. De repente, lá estava eu de mãos dadas com um inglês desconhecido de um lado e uma senhora gorda de bata colorida do outro, me concentrando minha mente no "universo da Yoko".
O lado babaca dos anos 60 ali se manifestava: uma onipotência holística, mística, um amor geral proclamado a "tudo", o exercício de um poder que não existia. Tudo aquilo era uma bobagem, um evento irrisório, diante da maravilhosa força dos Beatles lá fora, estourando naquele álbum obra-prima, mudando o mundo real, dentro do mercado, dentro da vida concreta, longe das babaquices semi-religiosas que também rolavam na "swinging London". Foi aí que comecei a não gostar de Yoko. Ela não tinha feito nada contra mim, coitada, nem contra ninguem, ainda, mas, como se diz no Rio, gratuitamente, "eu não fui com os cornos dela..."
Aí, passou um tempo e um dia eu vejo que a Yoko Ono estava namorando o John Lennon. Tremi. Senti que mudava uma época. Foi o mesmo tremor, quando soube do "blow job" catastrofico da Monica Lewinski no Clinton, que mudou o Ocidente, o mesmo tremor, quando o Sharon botou o chapéu e invadiu a Esplanada das Mesquitas, a beira do acordo de paz, o mesmo que sinto agora vendo o Paquistão preparar o terrorismo nuclear com suas 30 mil madrassas e o Osama ali nas bocas. (Claro que a escala sísmica é variada, mas o tremor é o mesmo é a certeza do erro sendo cometido).
Nesses dourados anos do desbunde , conviviam lados construtivos e auto-destrutivos. Quando soube do namoro da japonesa filha de banqueiro e radical, eu senti que Yoko tinha entrado para acabar com os Beatles, que certamente ela considerava "caretas". Não por acaso, logo depois, o Lennon declarou que o "sonho tinha acabado", em pleno sucesso do grupo. Imaginem se Yoko teria peito de ir procurar os Rolling Stones com esse papo; o Keith Richards botava ela no olho da rua a pontapés. Mas os Beatles, mais romanticos, mais bobos, deixaram entrar em a vibora que os destruiria. Fálica, castradora.
Nesta época, a humanidade era dividida pelos jovens em: caretas e "muito loucos". Beatles e Rolling Stones. No entanto, ambos eram importantíssimos, pois furavam a parede boçal da cultura de massas, levando adiante uma arte superior.
Mas, na década de 70 (que já se prenunciava nesse ano), surgiu uma terceira força, árida, muda, dolorosa, uma melancólica e ácida recusa à vida criativa, uma fuga do mercado e da criação que chamaram de "conceitual". A arte conceitual era uma sopa-no-mel para oportunistas e gente sem talento. Para esses teóricos, um conceito, uma ideia (ou "a ideia do que eles achavam que seria uma ideia") podia substituir a obra. Tudo era banido: o sucesso, a vivencia estética, o prazer, o mercado, tudo era um dogmatismo simplista da revolução critica que Duchamp tinha feito em 1920. Yoko era um agente da máfia conceitual. Ai começou a corrosão dos Beatles. Em pouco tempo,o grupo estava esfacelado, com o Lennon perguntando como o Paul McCartney podia dormir de noite ("how can you sleep at night?"), como se o grande Paul fosse um alienado, um direitista.
Ai, vi aquela foto otima da Annie Leibowitz, onde o Lennon se agarra como um bezerro nu no corpo de Yoko. Claro que,mesmo dominado pela baixinha, o grande Lennon continuou fazendo coisas ótimas, desde "Imagine" até o "Double Fantasy", seu ultimo disco antes do assassinato.
Mas a revolução "yokoniana" em que consistiu? Que fez ela alem da dissolução dos Beatles? Que apresentou ela ao mundo, se tudo foi feito por ele? Yoko nunca fez nada de relevante, a não ser dominar a alma do cara. Ela inventou vagos eventos, como ficar na cama diante da imprensa, pálidas demonstrações de desgosto pelo mal-do-mundo ( ela declarou anteontem aqui que "as guerras são desnecessárias e poderiam ser resolvidas por advogados..."); pode? E o mais interessante no picareta conceitual como ela, é a ideia de que a própria falta de talento já é um talento, que a bobagem irrelevante já é uma talentosa denúncia da própria arte como coisa "menor".
O que teria havido se os Beatles tivessem existido juntos mais tempo? A esperança teria sido mais longa? O romantismo psicodelico teria derivado para a caretice dos "Saturday Night Fevers" com tanta facilidade nos anos 70?
Por isso, nunca gostei de Yoko. E, ontem, li no jornal uma frase otima de Daniela Thomas, depois da performance da viúva em SP: "Depois de ver tudo aquilo, entendi porque eu queria matar a Yoko na infância.."
Eu também.
If only Arnaldo had met Yoko in Rio and had succeeded in persuading her to accompany him to that derelict coach in his left-wing hideout.
Here is a reaction to Arnaldo's column, written by Sergio Leo, a journalist in Brasília (for link, click here):
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Arnaldo Jabor as Darth Vader
Jornal O Globo, Segundo Caderno, pg. 10, dia 09 de outubro de 2007:
'Nesta platéia, há um ritual de comício
Fui ver o "Tropa de elite" como quem vai cometer um crime, fui assistir ao filme para me "purificar", mergulhando em um poço que imaginava tenebroso.
No tempo do Esquadrão da Morte, tudo que o bandido destinado a "presunto" implorava aos policiais, com o fio de náilon passado em seu pescoço, era que eles avisassem a hora em que iam seccionar sua carótida, afogando-o em sangue. Mas os caras maus não diziam, e o fio era puxado de repente e zás... pescoço cortado. A namorada de um matador me contou que ele se masturbava, enquanto executavam o vagabundo no terreno baldio, lentamente, com peixeira, para dar tempo de gozar no lenço.
Fui ver o "Tropa de elite" ansioso para fazer uma trip criminal contra minha antiga e cultivada "bondade": tesão de ser mau, querendo gozar com a violência. Não com a violência "estética" de lixos fascistas como o filme "300", com cabeças e braços voando em câmera lenta, nem com Chuck Norris e outros assassinos. Não estava querendo ver os balés de corpos massacrados do cinema americano, o prazer da morte, eles, sim, "fascistas", esta vaga palavra mussolínica. Eu queria sentir o prazer da vingança, interpretado pelo meu "procurador" Wagner Moura, que, aliás, está genial no papel.
Já tinha visto "Notícias de uma guerra particular", a obra-prima de João Moreira Salles, (será que este nome renascentista se aplica a um filme como aquele?). Já tinha visto o excepcional "Ônibus 174", também de José Padilha (aliás, o maior sucesso do cinema brasileiro no mundo), mas esses e outros, como o "Cidade de Deus", provocaram em mim apenas um vago mal-estar político, uma indignação culposa, uma malaise humanista diante da bestialização da vida brasileira, provocada pela inexistência de poderes públicos e pela influência da multinacional da cocaína, cujos líderes políticos aqui, na América Latina e anglo-saxônica, impedem a legalização das drogas, para manter o lucro de bilhões. Essas e outras obras de denúncia política me davam uma espécie de "consolação" pela comiseração ou o lamento da miséria (como nomeou Marx em seu texto sobre os folhetins de Eugene Sue). Aliás, a miséria e a violência também já me foram "úteis" como assunto ou para eu posar de bacana, de politicamente correto, assim como já serviu a muito cineasta e literato para ganhar dinheiro, condenando-a.
Mas, quando eu fui ver o "Tropa de elite", eu não queria socialismo nem consolação; eu queria vingança. Tinha lido nos jornais a eterna polêmica de nossos intelectuais dualistas: progressista ou fascista? Esquerda ou direita? Essa gente só consegue raciocinar com um cuco na cabeça, batendo o pêndulo como um colhão pendurado, tentando enquadrar a realidade num conteúdo ideológico qualquer. Muito bem. Fui.
Entrei no cinema ofegante, ocultando-me na gola do sobretudo como um suspeito, e vi o filme.
E verifiquei que o filme não era um filme. Calma, não estou esculhambando. Era mais que um filme: era um evento, uma experiência. Ninguém foi "vê-lo" - foram senti-lo, vivê-lo.
Em filmes recentes (e esse é um deles), há uma urgência até meio "antiartística". Tudo parece um grande videoclipe jornalístico, tudo é um berro assumido como um manifesto, para dar conta de uma realidade terrível mas invisível no dia-a-dia. Não há lugar para a "arte". A única mise-en-scène do filme é não ter mise-en-scène. Por exemplo, no "Notícias de uma guerra particular", ainda há uma forma: a tensa banalidade de tudo, a trágica beleza de nossa impotência diante dos fatos mostrados. Ali, está a arte. Em "Ônibus 174", Brecht se vira no túmulo quando, num raro momento da história do espetáculo, o seqüestrador (que sabemos que vai morrer, ao lado da moça também condenada) se vira para a câmera, para nós, no olho, na platéia, e berra: "Isso aqui não é filme, não! Aqui é a realidade!" Ali, explode a arte, ali viramos ao avesso e somos ejetados da sala, caindo em lugar nenhum.
Neste filme, não. No "Tropa de elite", a importância não está na narrativa (até bem "americana"); a importância não está no que ele concluiria ou nos ensinaria (já houve tempo em que queríamos "conscientizar" as pessoas com o cinema... já houve tempo em que a arte tinha a esperança de sedimentar ensinamentos...). Neste caso, não: a importância do filme é ter nos transformado em personagens.
As milhares de cópias piratas buscadas com fome, as platéias sideradas quase sexualmente pelo sangue mostram que nós somos os personagens de um país sem enredo, que estamos famintos de que algo aconteça, de que alguma forma de justiça se faça, de que alguma organização apareça, de que não haja só aquela polícia podre que rouba peças de carros da PM para vender, de oficiais pegando jabá do bicho, de que haja heróis incorruptíveis e machos vingadores de nossa insegurança. E senti no ar até uma certa decepção na platéia com a "crise", o breakdown do Wagner Moura. E me angustiei ao ver que o filme é tão perplexo como nós. Não sabe o que dizer, pois não há nada mais a dizer.
As multidões vão ver esse filme porque querem que ele seja uma resposta.
Não interessa se "Tropa de elite" é um filme ruim ou bom. O que conta é a fome de "solução" que ele desperta em nós.
Infelizmente, Wagner Moura, nem ninguém, nos salvará. O filme exibe a nossa impotência, diante do crime e da desordem republicana, nossa dolorosa decadência provocada pela política imunda que paralisa o país.'
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Arnaldo Jabor -- Não são quarenta ladrões, são quarenta guerreiros
O Globo, 18 setembro 2007
Temos de entender a psicologia social de nossos escândalos
Uma coisa me incomoda, me intriga nesta absolvição do Renan Calheiros: tanta é a indignação pública, tanta é a unanimidade em torno da ética contra os 46 senadores, que tenho a sensação de estarmos a analisar este fenômeno com instrumentos do passado. Ficamos tão "nobres" em contraposição à sordidez dos senadores que também desconfio. Eu mesmo roguei pragas bíblicas contra eles. Mas este fato é tão rico que deveria ser analisado sob a luz da ciência política, com uma postura menos indignada, pois a indignação se esvai como uma purificação e dá lugar a uma calmaria psíquica - a sordidez assimilada como mais uma desilusão. Esses 120 dias de cinismo e mentiras demandam pesquisa científica.
É fácil analisar os seis abstinentes comandados pelos sonsos Aloísio Mercadante e Ideli Salvatti. É fácil entender o mensalão mental que levou o PT e Lula a lutarem por Renan. É fácil entender pessoas de formação (não digo "marxista" para não sujar seu santo nome em vão), mas de formação mediocremente "socialista", enquistada em adolescentes dos anos 60 ou 70, o esquematismo subideológico que invadiu as universidades e o PT há 20 anos, transformando um partido que surgiu como fato novo num clube de ignorantes e oportunistas, comandados pelo rico lobista Dirceu. Ideli Salvatti, por exemplo, é a típica tarefeira sem opinião, que defende qualquer ordem do PT como se fosse uma mulher dedicada ao marido, mesmo que ele fosse assassino ou ladrão. Também é óbvia a derrocada depressiva de Aloísio Mercadante. Ele era esguio, bonito, filho de militar, com costas quentes, economista "orgânico" às ordens do partido, mas tinha um lugar límpido. No entanto, por mistérios do inconsciente, caiu para gestos obscuros, como o caso do dossiê na campanha contra Serra, chegando agora à tarefa humilhante de congregar os abstinentes, por ordens de Lula. É fácil entender a mente do pretenso "revolucionário" no poder. Em nome de uma causa, como fez Delúbio ou Silvio Pereira, se incriminam pelo prestígio dos chefes. Mercadante tem um bigode de Stalin ou Zapata, bigode "de esquerda" que evocava macheza e retidão, sem esquecer, claro, os bigodinhos com o desenho matreiro, que sugerem esperteza, rapinagem, de gente como Jucá e tantos outros bigodes nordestinos. No caso do Mercadante, explicou por que se absteve, seu bigode empalideceu e murchou de depressão. Os comunas do mal são fáceis de entender mas... e os outros?
A estética do baixo clero
Figuras que me encantam são os suplentes, como o Wellington Salgado ou o Sibá. Nunca tiveram um só voto. Por que Wellington defendeu tanto o Renan? Grana, não foi. Wellington é muito rico, dono de universidade, apesar de seu QI 0.5, incapaz de terminar um raciocínio, enquanto balança os cabelos ao vento, de terno, num mix de hippie com executivo. O ardor com que ele, Sibá, Almeida Lima e outros que defenderam os mensaleiros e o Renan mostra bem que eles professam uma ética sólida, clara, a ser estudada.
Intelectuais e jornalistas denunciam-nos em nome do "bem", como se eles fossem o "desvio" de uma norma, de uma ética que eles nunca tiveram. Eles são de outro país mental. Eles não pensam assim: "Eu sou um canalha, covarde, comprado por trinta dinheiros..." Não, todo canalha tem uma racionalização que os explica e absolve. Não se trata de "ética", é algo que vai além dela: é uma cultura secular, que se adapta a novos tempos e reage como mecanismo de defesa.
Sinto nesses parlamentares o prazer, a volúpia de ir contra o senso comum, contra o que a maioria pensa. Há uma ética sádica, de contrariar a população, de proteger uma obscuridade secreta, de defender o direito ao roubo, o direito à mentira como um bem precioso, um direito natural. Eles se banham na beleza de um "baixo maquiavelismo", no cinismo dos conchavos, atribuem uma destreza de esgrima às chantagens e manipulações. "Esperteza" é um elogio muito mais doce do que "dignidade". A resistência espantosa de Renan se explica como um "heroísmo" em prol do personalismo colonial atávico, contra a "violência" do que chamamos de "interesse público" ou de "democracia". Renan é um "defensor" dos que votaram nele.
Neste episódio todo, precisamos entender que o Atraso é um desejo, uma ideologia! Se a democracia se impuser, se a transparência prevalecer, como vão ser felizes as famílias oligárquicas? Como vão vicejar as fazendas imaginárias, as certidões falsificadas, os rituais das defraudações, as escrituras e contratos superfaturados? Que será da indústria da seca, não só da seca do solo, mas a seca mental, onde a estupidez e a miséria são cultivadas para o serviço da burguesia política? Como ficarão as amantes fixas, como se exercerão as doces camaradagens corruptas em halls de hotel, os almoços gordurosos, as cervejadas de bermudão e gargalhadas, a boçalidade autoritária, as "carteiradas", os subornos e as chaves de galão? Como serão os jantares domingueiros, como se manterão a humilhação e a fidelidade consentida das esposas de Botox, o respeito cretino dos filhos psicopatas? Como se manterá a obediência dos peões, dos serviçais analfabetos? Que será do "sistema" cafajeste e careta que rege o país?
E, por entre esse baixo clero, deslizam os "generais" da oligarquia. Sarney desliza com seu jaquetão de teflon, desliza como um cisne negro de bigode, como se vogasse numa lagoa de realpolitik nordestina. Sarney é um monumento a si mesmo, feito de literatura, 40 anos de poder inútil (o Maranhão é um deserto de miseráveis), narcisismo e allure de estadista calmo. Que defende Sarney? Ele é o defensor da continuidade do Atraso, da doce paz paralítica, é um guardião da tradição oligárquica, para manter a imobilidade do pântano colonial, do melaço imóvel nos tachos patrimonialistas.
É preciso entender que a absolvição de Renan Calheiros e sua resistência quase "heróica" respondem a uma ideologia molenga, mas muito poderosa e que não quer morrer! Não foram 40 ladrões; foram 40 resistentes em luta por seus direitos.
terça-feira, 31 de julho de 2007
Arnaldo Jabor was "strrrrrroooonnng" today
Now, in order to pronounce the word strong in the correct sense and meaning intended in the present instance, you must grit your teeth together while pronouncing the "s," then clench your teeth on only one side of your face, drawing back your lips on the same side while nearly growling out the rrrrr's very deeply in the back of your throat, only opening your mouth slightly while thrusting out the lower jaw to pronounce the "o" for at least a full second (like a prolonged "aw"), all the while leaning forward slightly, glaring at your listener with your dominant eye, and to complete the effect, use an accent from southern Illinois (which is akin to that of western Tennessee, if you know what I mean).
Mr. Jabor's words were screaming of his frustration. He imploded. Then he exploded. In other words, he went supernova and it was not pretty. I pity his keyboard. Still, he is the only one saying what we all want to say (albeit in other words). But words are not enough. Only actions will solve this mess.
ADDENDUM: For those of you who do not know, I will tell you that it is not possible to copy text directly from the online version of O Globo. Therefore, it is necessary for me to laboriously type each and every word from Sr. Jabor's column directly into my blog. Today, his words are so graphic that I do not feel comfortable placing them in this post. Instead, I am providing a link to a site with pertinent YouTube videos: http://letrasdespidas.wordpress.com/2007/07/11/comentarios-do-arnaldo-jabor/#comment-500
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ADDENDUM of August 8th: I found a site where you can read Mr. Jabor's column of July 31st without me having to go to the trouble of typing each word into this blog.
http://arquivoetc.blogspot.com/2007/07/arnaldo-jabor-os-avies-andaram-bebendo.html
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terça-feira, 24 de julho de 2007
Arnaldo Jabor, Telling It Like It Is!
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A sordidez do que acontece no Brasil é tal que até criticar o governo só serve para legitimá-lo. Este governo não merece nem uma critica à "luz da razão". Tem de ser analisado como um exame de patologia clínica. Estamos sendo infectados por uma doença histórica. Chama-se a "síndrome da incompetência generalizada". Ou então, "falência múltipla dos órgãos públicos".
Esse doença se espalha a partir do centro do Executivo, do topo da pirâmide de poder. Lula foi a bandeira de bolchevistas e intelectuais durente décadas. Era a esperança do velho populismo e dava um rosto operário concreto aos ideólogos. Controlado pelos comandados de Dirceu, acabou eleito pela habilidade realista de um publicitário. Com a intervenção salvadora de Jefferson, Lula criou sua própria doutrina, que hoje se derrama sobre todos os aparelhos de Estado e se infiltra, pelas alianças, nos outros poderes. As características dessa doença que infecta o país oriundas de uma vasta cepa de germes históricos e ideológicos. Há uma cepa herdada (resistente a antibióticos) de um autoritarismo com ecos stalinistas, que se cruzou com o germe do sindicalismo oportunista, com o estafilococos do populismo pós-getulista, formando um novo tipo de micróbio que, com a baixa imunidade da democracia representativa, se espalha de forma profusa e letal. Essa doença grave fica muitas vezes dissimulada pela figura de Lula, com seu carisma de símbolo, assim como certas febres podem levar a alucinações enganadoras.
Lula não ama o povo. Ao contrário, quer ser amado por ele. A recente vaia que o "mago-ou", feriu-o por ele se sentir uma espécie de pioneiro de ascensão social, que ele diz desejar para todos. Aliás, a crença de que o homem "de esquerda" pensa no "bem" real do povo é mais uma falácia herdada da tradição. Stalin amava o povo? O povo é visto pelos totalitários como uma "massa" (nome usado por eles) a ser moldada como uma máquina humana se reproduzindo sempre, obediente a líderes. O "povo" não é visto como seres para brilhar ou florescer, mas para ser controlados. O recente "top, top" do velho Marcos Aurélio é a metafora simétrica da vaia: "Vão ter de nos engolir!" -- a opinião pública e a impresa, o inimigo maior...
Outra característica dessa anomalia é sua espantosa incapacidade administrativa. A ideia de "competência" é vista com desconfiança, inclusive teoricamente, como já foi relatado por intelectuais como Marilena Chauí, porque a competência técnica pode "encobrir um desvia neoliberal, de direita". "Administrar" é visto como ato menor, até meio reacionário, pois administrar é manter, preservar, coisa de capitalistas. A incompetência paralítica deste governo é uma mistura esquisita de restolhos de slogans socialistas com uma adesão custosa e desconfiada ao nosso subcapitalismo, a não ser nas regras "macro" que FH deixou, em que Lula, por instinto, não mexe.
Essa ambigüidade paralisa processos e projetos. Nosso Estado quebrado não pode fazer desenvolvimentismo, e a desconfiança congênita na iniciativa privada impede o crescimento. Só respeitam os bancos e os grotões eleitorais. Isso, misturado a uma vaga idéia de "futuro" que habita a tosca cabeça dos sindicalistas oportunistas e velhos bolchevos, cria uma desvalorização do "aqui e agora", como se o "presente" fosse algo desprezível. Assim, tudo fica parado no ar, nada sai do papel. As promessas e os anúncios bastam, a realização é supérflua.
Sem falar na infecção do baixo aliancismo -- o que faz a roubalheira ser vista quase como um mal necessário e inevitável ("Oba!"), o que permite a predação da República com a consciência limpa.
Também a invasão de cargos técnicos por hordas de sindicalistas sem preparo, ignorantes gera a infecção da burocracia labiríntica. A confusão mental e a obsessão paranóica da "conspiração" criam mecanismos de defesa que impedem qualquer eficiência, em nome de uma vigilância contra os inimigos (nós). Assim, nada anda com o passo eficaz do capitalismo. Em dez meses de caos aéreo, com 354 mortos, só agora se tocaram para o óbvio de medidas anunciadas e que talvez nem sejam cumpridas. A isso, claro, some-se o caráter preguiçoso e deslumbrado do Lula, que se declina por todos os escalões do Estado, como uma degeneração de qualquer fé ou iniciativa. Se o comandante berra "Dane-se!", todos depõem suas armas. Além de não saber o que fazer, Lula não tem saco para nada. Sua atitude de se colocar acima da política cotidiana desqualifica a própria política, como sendo coisa menor, o que é uma sopa no mel para corruptos e vagabundos.
Por outro lado, como a economia mundial é favorável, temos a impressão de saúde, e os danos ficam ocultos e só ficarão claros com a próxima crise. Em vez de ser usado, a economia mundial está sendo abusada, como uma droga entorpecente. Pela ausência de projetos, resta aos donos atuais do poder manter comprado o apoio das "massas", com BolsasFamílias e aumentar gastos públicos em contratações e falsas iniciativas. Tudo que tinha de ser reformado não o será, pois "reforma" repugna revolucionários.
É isso aí. Tudo que o governo anterior introduziu e que poderia nos fazer avançar foi paralisado. Estamos diante de um grave retrocesso histórico. A tragédia de Congonhas é uma metáfora sinistra de nosso momento: o avião estava muito veloz para frear e muito lento para arremeter. Como o Brasil. Não só nada avança, como o que antes funcionava está quebrando. Alem disso, os germes cruzados com muitas cepas, fortalecidos por décadas de superstições populistas, são muito resistentes. Não há antibiótico conhecido contra esses micróbios. Nenhum, muito menos o PSDB, que morreu, contaminado por si mesmo.
Here, a link to more of his work: http://www.paralerepensar.com.br/a_jabor.htm
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domingo, 22 de julho de 2007
O Imortal Arnaldo Jabor, Meu Guerreiro!
This website is incredible: www.kibeloco.com.br
And, even more amazing is this site from Petrobras:
http://www.hotsitespetrobras.com.br/osegredodoet/
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Arnaldo Jabor speaks from his heart
Alguma coisa delicada desaparece no Brasil de hoje
....No corredor da casa de minha infância, no Rocha, na antiga Rua Guimarães, hoje Almirante Ari Parreiras, no fundo do corredor brilhava uma pequena imagem de Santa Terezinha do Menino Jesus, que minha mãe adorava. Com uma braçada de rosas no peito, um crucifixo na mão esquerda, ela está até hoje aqui, agora, na minha mesa, ao lado do computador. Não tem mais que um palmo de altura, está descorada pelo tempo, mas, na época, ela era fosforescente. Sim, uma tinta especial dava-lhe uma aura esverdeada que iluminava fracamente o fundo do corredor tão longo, como uma promessa de milagre, de esperança. Olho a pequena estatueta na minha mão. É tão pobrezinha, de massa, mas veio da França -- vejo no pedestal. O rosto da santinha está quase apagado, mas seus olhos são nítidos, dois pontos negros fixados no chão, a cabeça baixa, triste, não por ela mesma, mas como deprimida pelo mundo organizado à sua volta, nos objetos de minha mesa: o roteador wireless, o cellular carregando, os fios do iPod, numa estranha convivência que a faz, coitadinha, inatual e deslocada.
....Depois, no fim das matinês, esperava, como um pedinte, os fotogramas coloridas, restos de películas que arrebentavam nos projetores a carvão e que o velho projecionista do Palácio Vitória me dava, no caminho de casa. Eu olhava os fotogramas contra o sol, promessas de aventuras, múmias sinistras e rostas de princesas, cavalos a galope e beijos na boca, e eles me levavam para longe da minha rua. Quando passava com meu pai no velho Ford 46 em frente ao Morro da Mangueira, que eu achava sujo e quebrado, eu não entendia aquilo e lhe perguntava por que não "consertavam" o morro, e meu pai não respondia. Eu vivia assim, vendo a vida meio de fora, com medo de cair naquele mundo que eu não entendia, que me era nebuloso, inexplicável.
....Uma outra vez, lembro-me de uma visão melancólica e inesquecível. Nas ruas do Rio, andava um velhinho preto, quase um anão, que tocava discos com canções em 78 rotações numa vitrola: canções românticas, trechos de operetas, valsas vienenses, para ouvintes que lhe pingavam tostões. Chamava-se Camundongo (quem se lembra?) e tinha um velho caminhãozinho, um triciclo que ele improvisara e que ele movia com pedais. Tocava música nas ruas, Francisco Alves, Orlando Silva... por vinténs. Na solidão lírica daquele Camundongo, no assassinato da boneca loura, senti que queria voar para longe, junto aos urubus que via flutuando à distância, "dormindo na perna do vento" como me disse Tom Jobim muitos anos depois. Eu percebi que queria uma outra tristeza, mas não a tristeza geral de todo mundo que eu conhecia. Olho Santa Terezinha aqui na mesa e me lembro disso... Se escrevo sobre essas ínfimas lembranças, não é por falta de assunto, não.
quarta-feira, 4 de julho de 2007
Gente! Por favor! Wake up!!!
OK, I am going to steal, illegally, again, the words of Arnaldo Jabor from page 10 of the Segundo Caderno of O Globo, edition of 3 July 2007.
Lula pensa: "Eu justifico os meios!"
O apoio do Executivo ao Senado ameaça a democracia
...No presidencialismo de coalizão, em geral, o presidente fica na mão do Congresso; agora, o Senado ficou na mão de Lula e contou com seu apoio. Lula acaba de fortalecer o pior lado do Congresso, no apoio que deu a Renan Calheiros, que ameaaçava não votar nada do governo. O PMDB está cobrando agora o apoio que deu ao PT na época do esgoto da "mensalão". Ou seja: escrotidão com escrotidão se paga.
...E o fascinante nisso tude é que Lula se "benefícia" dessa lama do Congresso.
...Apoiado por 65% da população mal informada, Lula exerce um espécie de "despotismo não escalrecido", navegando na política econômica que herdou do FHC (e que ele não é bobo de mexer) e na sorte imensa de governar com o mercado mundial com imensa liqüidez. Ele quer curtir seu mandato, com calma, luxo e volúpia. Aceita a tutela do PMDB e usa uma linguagem com resquícios de esquerda; exala tranqüilidade britânica, saboreando as delícias de seu mandato.
...Lula é responsável, sim, pelo caos do Senado. Sua forma displicente de governar, de não fazer marola, contamina a política toda. Na práctica, o país está sendo governado por um "bonapartismo" cordial, de vaselina, em que um símbolo operário mantém seu charme de marketing sobre a vida social, anulando a vida política.
..."Os políticos são todos uns ladrões" -- pensa o povo -- "mas nosso Lula está acima da política..."
...Para além do oportunismo de Lula e do PT, há também neste governo o mesmo rationale que explicava a distribuição de dinheiro do mensalão. Há um gélido desprezo de homens "superiores" do PT e Lula, em seu narcisismo sindicalista, pela "ética burguesa", o que permite, de cara limpa, numa boa, beijar a mão do Barbalho ou dar força para Renan. "Estamos acima disso tudo que está aí... pois miramos uma 'coisa' maior!" Aquilo que já foi o slogan utópico dos comunas virou o sujo lema da permissividade atual, pois, como não têm utopia alguma, a não ser seus cem mil cargos no Estado, usam-no para manter limpas suas "boas consciências" irresponsáveis que estimulam a corrupção. Assim como os comunas acham que os fins justificam os meios, Lula pensa: "Eu justifico os meios!"
...Lula descobriu que não precisa governar. Basta pairar no "Ibope". Lula recusa qualquer reforma política ou econômica. Em quase cinco anos, ele não fez absolutamente nada, a não ser mamar na herança bendita do FH (que está sendo dilapidada com petistas invadindo o Estado como uma porcada magra no batatal) e prometer planos de crescimento, como o PAC, que, pelo jeito, não sairá do papel, dadas a lentidão patológica da administração e a falta de garra.
...Parafraseando Dora Kramer: quando acabar o mandato, Lula será louvado pelas coisas boas que não fez (e sim FH) e não será criticado pelas péssimas coisas que fez (explosão de gastos, imprevisão, falta de projetos etc...) que vão explodir no colo do sucessor.
...Lula quer o êxtase da aceitação total e vale tudo para isso. Ele substituiu o atraso tradicional por um atraso travestido de novo, um ensopadinho de slogans populistas com um estatismo inchado e falido. Bela vitória do atraso nacional, apoiado por massas que não entendem nada. Lula desmoralizou os escândalos, vulgarizou as alianças.
...Que fazer quando Lula apóia o Renan e põe a mão em sua cabeça, enquanto verbera contra a PF e o Ministério Público? Quando o Collor caiu, ainda existia o escândalo. Havia ainda os "homens de bem da República", havia Barbosa Lima Sobrinho, gente assim, ainda havia o susto, a indignação. E agora? Como vamos protestar? Com as cartas dos leitores? Por um idiota solitário como eu e outros journalistas "fascistas", como nos apelidou o Renan? Está havendo uma espécie de "chavismo" molenga e disfarçado de Lula que estimula essa mixórdia e lucra com ela.
...Há um caos se armando por aí. Não há instrumentos que a opinião pública possa usar para pôr fim, pôr "cobro", como se dizia, a esta espantosa desmoralização da democracia. Alguma coisa de muito grave está se gestando, uma doença, uma terrível crise no ventre do país. Um autoritarismo virá? De quem? Os militares foram na época motivados pela Guerra Fria, pelo medo de comunismo. Um autoritarismo civil? Com quem? Onde está esse homem? Uma onde plebiscitária irrefreável? Mas movida por que maremoto de opiniões? O grave é que os políticos não estão mais se escudando e protegendo apenas por saberem da impunidade que o Poder Judiciário lhes garante. Não. Eles estão adorando nos anestesiar para sempre, eles estão percebendo que, além da impunidade, há o tédio, a banalização do horror, eles descobrem maravilhados a segurança suprema: a permissividade concedida pelo povo. E apoiada pelo Lula. E nós estamos aprendendo a querer pouco.
...A "Veja" de anteontem nomeou os cinco mosqueteiros da ética: Gabeira, Simon, Jarbas Vasconcelos, Demóstenes e Jefferson Peres.
...Deve haver mais, no Congresso. Temos de fazer a lista das pessoas que podem ajudar em um mutirão contra este horror. Dentro e fora do Congresso. Quem? Hoje temos um país deprimido e impotente para reagir, assistindo a um festival horrendo de mentiras (quem viu o show psicótico-melodramático de Roriz na TV?), onde nada de bom acontece nem consola; em suma, um país perfeito para a crise que virá, com o primeiro retrocesso que houver na economia mundial.
...Só Lula e o poder que 65% do povo lhe dão poderiam fazer alguma coisa. Mas, ele não quer aporrinhação. Os crimes do Congresso ficarão sob seu beneplácito de sua realpolitik, nome de guerra para sua preguiça e seu desinteresse.
...Lula não lutará contra nada. A reforma política não virá, reforma alguma virá. O fim da Comissão de Orçamento não virá. As emendas individuais ou de guarda-chuva não acabarão jamais, o Judiciário continuará como está, jamais condenando alguém. Ele não lutará por sua mudança, razão maior de nossas roubalheiras endêmicas. Nada virá, só o imprevisível e, como sempre, tarde demais.
terça-feira, 26 de junho de 2007
Arnaldo Jabor, My Hero, Sometimes
A teoria do canalha: Estamos sob o ataque de um enxame de malfeitores
Arnaldo Jabor
O Globo, Segundo Caderno, p. 8, edição do dia 26 junho 2007
"Eu não sou um canalha, eu sou o canalha. Tenho orgulho de minha cara-de-pau, de minha capacidade de sobrevivência, contra todas as intempéries. Enquanto houver 20 mil cargos de confiança no país, eu estarei vivo, enquanto houver autarquias dando empréstimos a fundo perdido, eu estarei firme e forte. Não adianta as CPIs querendo me punir. Eu saio sempre bem. Enquanto houver este bendito código de processo penal, eu sempre renascerei como um rabo de lagartixa, como um retrovírus, fugindo dos antibióticos. Eu sei chorar diante de uma investigação, ostentando arrependimento, usando meus filhos, pais, pátria, tudo para me livrar. Eu declaro com voz serena: Tudo isso é uma infâmia de meus inimigos políticos. Eu não me lembro se esta loura de coxas doubradas foi minha secretária ou não. Eu explico o Brasil de hoje. Eu tenho 400 anos: avô ladrão, bisavô negreiro e tataravô degredado. Eu tenho raízes, tradição. E eu sou também 'pós-moderno', sou arte contemporânea: eu encarno a real-politik do crime, a frieza do Eu, a impávida lógica do egoísmo.
There is a strong note of desperation in this article, and I don't blame him one bit. I wonder if Mr. Jabor had access to an interview with Mr. Maluf (the ex-mayor of São Paulo, accused of absconding with the public's money, money laundering, etc.) that was published in O Globo one day after his own essay. Impunity reigns in certain circles here.
Alexandre Garcia, my hero
Here is a man who finally spoke of his outrage -- we need many more of these men and women, and we need them on the streets en masse.